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:: Sexta-feira, Julho 01, 2005 ::
Texto "emprestado" do surf, sopas e descanso
A vida é uma daquelas coisas que todos temos como dádiva, e que todos esperamos nunca deturpar com névoas entrincheiradas numa vala de monotonia aguda, a qual um dia poderemos no leito da morte, recusar como válida, e chorar por nunca termos sentado numa árvore e lineado momentos de perfeita harmonia com o universo.
Frente a um espelho qualquer alma se sente no direito de ser uma única fonte de energia pronta a fazer do mundo um local em simbiose intensa com o acto de estar. Mas a maioria cai, cai num buraco negro cósmico, assente numa realidade diária, superficial, restrita a fazedores de sonhos, e meticulosamente agarrada a uma panóplia de mecanizações produtoras de energia, energia gasta num inerte sistema de sobrevivência.
Sobrevivência - é isso que a maioria tem como sentido de vida.
E o mundo gira, os sobreviventes alimentam a grande máquina que faz o mundo rodopiar frenéticamente, incapazes de se auto determinarem e sentirem a verdadeira essência da Criação, da Existência - o porquê da vida. Perdemos muito tempo a olhar para o imensamente grande, ou imensamente pequeno, tornamo-nos mesquinhos, megalómanos, pseudo-altruistas sem pingo de amor, acorrentamo-nos ao infimo designio de um monstro sagrado, e sentimo-nos como se a maior das felicidades nos tivesse alimentado os bolsos.
A busca por momentos de sublimação fisica e espiritual, os extremos cantos da vivência diária, não são coisas que o comum dos mortais procure ou alcance facilmente, a livre circulação de sensações, a transformação lenta em sentimento, o amor, o sorriso feliz e a harmonia sincera com o que nos rodeia, não é uma imagem simples que é por vezes substituida por cenários de papel alimentando uma ilusão, ilusão essa que nunca pode ser mais do que um animal ferido, moribundo caído em areia movediça, calma, inquietante, traiçoeira e fatal.
E na água mais calma, o ser sobrevivente um dia colapsa, nem que seja no fim da sua existência, o colapso dá-se na constatação da insignificante linha que traçou um caminho inutil neste mundo. A felicidade não se alcançou, foi antes uma ilusão, e a monotonia vingou sobre a harmonia. Então o homem se afoga.
É traçando o nosso mapa, aquele mapa em branco que se escreve à medida que o tempo nos destila a existência, que um dia podemos morrer sorrindo e olhando os pássaros voar sabendo que em tempos também voámos. Traçar esse mapa é tarefa que tem como inata, a dificuldade inerente à tendência humana para a automatização e consequente monotonia. Traçar esse mapa é libertação, mental, física, espiritual... é deixar o coração fluir e sentir o verdadeiro apelo da vida.
Surfar uma onda, é por isso um acto em mar revolto, mais um traço no mapa rendilhado de linhas, amor ao mar, à vida, a nós próprios e aos nossos designios. É a harmonia com a ambiência, é viver intensamente o segundo a segundo de cada particula de água dinamizada pelas forças universais da Natureza, como muitos outros modos de vida, o surf é isso... não afogar no simples, no calmo e fácil. É antes de mais, em mar revolto Viver.
:: 7:30 PM ::
escreve algumas linhas aê:
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:: Terça-feira, Junho 28, 2005 ::
Som pra quem não conhece
John Butler Trio.
Por aqui tu entra no site e por aqui tu escuta umas músicas.
:: 10:54 PM ::
escreve algumas linhas aê:
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Então tu sai pra rua e faz aquele velho percurso tradicional do dia-a-dia. Pega o carro na garagem, larga a bolsa-sacola-livro-revista-casaco no banco do carona ou no banco de trás, liga o rádio e dá a partida. Faz o mesmo percurso que tu tá acostumado a fazer todos os dias. Pára na primeira sinaleira, dobra à direita, depois à esquerda, anda mais 500 metros e pára em outra sinaleira. Uma curva pra cá, outra curva pra lá, tudo tão igual e diferente. E assim tu vai, e chega ao teu destino. Como sempre. Mas tu já experimentou fazer um novo caminho? Ao invés de dobrar primeiro à direita porque tu não dobra primeiro pra esquerda? Passa por aquela rua mais movimentada, mais calma, por aquela rua onde tu enxerga toda a cidade lá embaixo. No início ou no fim do dia. Não importa. O importante é a direção. Seja ela por lá ou por aqui. Seja o caminho mais longo ou mais curto. É como abrir uma gaveta com a mão que tu não tá acostumado. É como andar na calçada da esquerda e não na calçada da direita como tu tá acostumado. É como tomar banho no banheiro do quarto do lado e não o mesmo chuveiro que tu vê a água cair todos os dias. É como deitar do outro lado da cama que tu tá acostumado a deitar pra dormir. Se permitir, talvez seja isso. Se permitir "ver" ângulos diferentes e caminhos opostos, mas que na realidade representem aquilo que tu sempre quis e aquilo pelo que tu sempre lutou. Se tu não tá escutando de um lado, experimenta ligar o fone. Se tu não tá escutando do outro lado, é porque o fone tá quebrado. Porque na vida, e quando se fala "na vida", tu tem que te permitir. Nada de moralismos. Talvez tu precise realmente mudar alguns hábitos, por mais que tudo esteja aparentemente "bem". Porque tu sabe que no fundo não tá e tu pode fazer com que fique bem melhor. Então vai lá. Abre a janela e deixa o sol entrar de manhã cedo. Escuta aquele sabiá que fica no pé de manga da tua casa e que te acorda todos os dias às quatro e meia da manhã com seu canto. Toma aquele leite com café, pão torrado, suco de laranja e um pedaço de mamão. Sai pra rua e dá um sorriso pro velho que tá sentado no banco da praça. Ri da criança que tá correndo pra lá e pra cá. Faz alguma coisa diferente. Ou não. Ou fica aí, nesse teu mundinho rotineiro e sem graça. Talvez não sem graça, mas que um dia tu vai encher o saco. Pode ter certeza!!!
:: 7:51 PM ::
escreve algumas linhas aê:
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:: Domingo, Junho 26, 2005 ::
Trechos do texto de Luiz Mendes publicado na Trip de junho
Amei desavergonhadamente, até que tudo ficasse dolorido demais para ser vivido. Parece que o que doía era o que fazia amar. Era como se a dor libertasse o que o amor despojava. (...) O mais dolorido de estar preso é ficar longe de quem amamos. Mas não amar ninguém é pior ainda. O tempo parece que pára nos dias sem amor. (...) O amor não é tão diáfano quanto imaginamos. Não faz levitar. Não há qualquer garantia de duração ou continuidade. A única certeza é que tudo deve ser uma conquista ininterrupta. Qualquer palavra mal colocada pode ser fatal. Relação a dois, antes de tudo, exige respeito. Paciência para ouvir argumentações e vontade para refletir e compreender. (...) Respeitar, às vezes, significa relevar, fazer vistas grossas. Silenciar, numa palavra. O amor é um desses quesitos básicos para que a relação íntima possa dar certo. Não se basta em si. Carece de recursos outros que nem sempre temos disponíveis. Então, podemos fracassar. Tudo bem, somos humanos. Os únicos cujos fracassos sedimentam vitórias.
Importa ver tudo com os olhos da realidade. Tudo o que temos são nossas experiências acumuladas que formam nosso conhecimento particular. O resto está sempre de passagem. As cores esmaecidas não podem ser apagadas. A lembrança busca carregar nas tintas e colorir as fases mais agradáveis. A mente tende a revisar a realidade, transformando-a em algo possível de ser superado. Por isso, por mais que soframos com a morte de alguém querido, a tendência é amenizar a dor até que assimilemos o golpe. São raras as pessoas que conseguem se relacionar entre si com a maior leveza do mundo. No geral, pelo que pude constatar aqui fora, relacionamento íntimo é esforço constante. Tudo parece estar por um fio, como uma réstia de luz desmanchando a penumbra. É preciso traçar novos vôos, um longo gesto para alcançar alguma coisa, mesmo que não saibamos o quê. Estou aprendendo. Meu último relacionamento a dois me ensinou que a vida é a força que se move para além da imaginação, encaminhando-nos para a realidade. O sentimento que nos unia virou bem-querer profundo, quiçá amor de verdade, desejo de felicidade sem posse. A relação a dois diluiu-se, mas deu certo. Pelo menos esse é o gosto que sinto. Não houve vencedores porque não saímos perdendo, muito pelo contrário. Hoje, solteiro, percebo que meus sonhos não eram falsos porque me fartaram de ensinamentos. Com certeza, da próxima vez, estarei mais capaz.
Pra quem não sabe, Mendes cumpriu pena de 31 anos e dez meses, por assalto e homicídio, e hoje vive em São Paulo.
:: 3:00 PM ::
escreve algumas linhas aê:
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Sair na busca incessante de cada movimento ou através de cada pensamento. É através dos atos que chegamos aos fatos, numa constante caminnhada. Como o frescor da gota d´água na volta pra casa ao encontrar o oceano. Como o rastro da estrada que fica pra trás sem constrangimento, sem cabeça pesada. O vento que molda o corpo estendido na areia e que nos apresenta a mais sublime das formas como se tivesse exposta ali há muito tempo. Feita pra ele que corre atrás do vento e que enxerga no horizonte a tão esperada onda. Que chega e arrebata o coração com um simples olhar. Jamais era ele daqueles que recusam. A tal natural e humana predisposição ao erro ou algo ainda mais insólito a demonstrar a insistência destes fragmentos ressurgiram assim, de súbito, entre as tantas possibilidades de uma simples continuidade. Apenas surgiram. E vieram de longe, mas o caminho já estava traçado. Vinha de longas tempestades. De oceanos distantes e de formas mutantes.
:: 2:42 PM ::
escreve algumas linhas aê:
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